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Oscar Lewandowski
Economista e Professor

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Entrevista concedida pelo Economista e professor Oscar Lewandowski, ao PME NEWS, edição de Abril de 2024 – Tema: “O conflito de ideias pode ser saudável em uma empresa?”.

PME NEWS – E então professor Oscar.  Você acredita que seja possível que os conflitos de pensamentos sejam saudáveis em uma empresa?

Oscar Lewandowski – Em determinadas situações, pensamentos discordantes ou conflitantes são esperados e até saudáveis; seja no ambiente empresarial ou acadêmico. Assim como podemos entender que não existe somente uma solução para qualquer problema, não existe somente uma forma de observá-lo. Já me deparei com uma situação em sala na qual um aluno disse que a resposta que eu estava apresentando no livro de finanças para a diversificação era a oposta àquela encontrada em outro livro para a mesma situação, pois era um livro mais focado no produto. Perguntando aos meus pares, reparei então que a depender da disciplina que o professor lecionava, a resposta daquela questão variava e todos respondiam com a mesma certeza a sua escolha. Não se tratava de valores políticos, culturais, morais nem de certo ou errado. Se este choque de pensamento ocorre entre mestres e doutores de um mesmo curso em função da sua área de especialização; imagine como isto ocorre dentro de diferentes instituições.

PME NEWS – O conflito de ideias tende a ocorrer em quais áreas de uma empresa?

Oscar Lewandowski – Atritos parecem disseminado entre vários departamentos em várias empresas como: (i) jurídico cobrando e sendo cobrado pelo comercial, (ii) o RH sendo pressionado pela produção para a contratação urgente. Existem muitas outras situações de choque como as de disputa de poder no dia a dia do trabalho, mas gostaria de direcionar aqui ao conflito de ideias que podem ser esperadas e aceitáveis.

Gestores da área de marketing e Gestores da área financeira, em muitos casos, são indivíduos que têm um relacionamento pessoal entre si, não raramente membros da mesma família ou colegas de longa data da escola, de formação ou mesmo somente da empresa onde trabalham. Ambos, até por estarem em cargo de liderança, podem demonstrar algumas aptidões de convencimento e serem simpáticos. O fato mais marcante é que, na maioria dos casos, ambos de fato estão pensando no bem da empresa e acreditando que seus posicionamentos são adequados naquela situação.

Pessoas que atuam por muito tempo em uma mesma equipe acabam tendo pensamentos convergentes. As situações de convergência costumam nem chamar a atenção; enquanto as de discordância ficam na memória dos envolvidos; ou mesmo registradas nas atas. Para um observador desavisado pode parecer que, tanto gerentes da área de marketing quanto gerentes da área financeira, frequentemente discordam nas reuniões para a tomada de decisão ou na elaboração do planejamento do lugar onde trabalham. Não sei se a palavra conflito é a mais adequada para este tipo de situação, prefiro pensar que se trata de um choque de ideias que ocorre por prismas diferentes em ver a mesma realidade.

PME NEWS – O que você quer dizer com prisma? Poderia ilustrar com alguns exemplos?

Oscar Lewandowski – Por Prisma quero dizer a forma de enfocar uma situação ou questão a ser resolvida. A formação e a própria vivência de qualquer profissional, muitas vezes, ditam as suas escolhas, atuando de forma inconsciente. É frequente dizer que determinado setor tem uma filosofia própria que foi criada por um diretor específico; quando, na verdade, a forma de pensar foi guiada pela formação dos profissionais que lá atuam.

A palavra da moda, “sustentabilidade”, é usada na hora de determinação do preço. É de se esperar que numa discussão coletiva alguns profissionais foquem mais nas condições de mercado; enquanto outros direcionem sua atenção a custos e margens de lucro desejadas.

Outro exemplo refere-se a uma empresa que está ponderando inserir um novo produto na sua linha de produção, enquanto um profissional de marketing pode sugerir algo semelhante com o tipo de produto já vendido para mostrar ao mercado o nível de especialização no segmento em que atua. O profissional da área financeira pensa em diversificar o risco de atuação e deseja algo novo, ou pelo menos com comportamento distinto dos produtos que já vende. Eu mesmo já vi uma situação em que irmãos sócios numa loja de roupa feminina debatiam se deveriam incluir meia calça ou sandálias femininas. Nisso o contador sugeriu: “Vocês deveriam criar uma seção infantil ou masculina”.

PME NEWS – Como mediar diferenças filosóficas?

Oscar Lewandowski – Acredito que exista sim a decisão mais adequada. Mas só saberemos no futuro, quando acertamos ou erramos. O que quero destacar é que a forma de vermos nossos problemas parece a certa porque construímos nossos objetivos com bases em valores que fomos incorporando durante nossas vidas. Isto algo que acontece com determinados profissionais sem perceberem.

É lógico que seria grosseiro dizer que: “Enquanto uma pessoa do marketing só pensa em conquistar mercado; uma pessoa do financeiro só pensa em segurança de caixa”. Mas através destes extremos podemos destacar que o foco não é o mesmo; ainda que o objetivo final seja o mesmo: “Aumentar a solidez da empresa!”

Lembro que diferenças filosóficas são distintas de diferenças de interesses; pois os envolvidos desejam o melhor para a empresa e estão com perspectivas futuras semelhantes. (Caso um deles estivesse pensando em sair do país e vender a empresa seria um exemplo de diferença de interesse).

PME NEWS – Qual a sua orientação para um ambiente menor como as pequenas e médias empresas em que dois sócios estejam em conflito de ideias?

Oscar Lewandowski – Seja numa grande corporação ou em uma PME, ou mesmo em um clube ou sindicato; o primeiro passo é reconhecer que se trata, na maioria dos casos, de um conflito de pontos de vista. Admitindo isso, fica mais fácil de aceitar ver a opinião do outro e propor a sua. Note que ao se impor a forçar uma ideia, ainda que acertada, perde-se a simpatia e o apoio em situações futuras da outra parte.

O objetivo não é ter consenso, mas permitir que a decisão final seja amparada pelas considerações expostas e em alguns casos assegurar alguma flexibilidade na decisão tomada.

Em instituições sérias, espera-se que todos os envolvidos tenham capacidade crítica para entender abordagens distintas. Logo, cabe a cada parte expor suas ideias e com bom senso considerar o que o outro pode estar priorizando. Cabe ao gestor central – seja o CEO, diretor local, chefe de setor, presidente de um clube ou associação – tomar a decisão final reconhecendo múltiplos interesses e visões que estão envolvidos.

Por se tratar de um atrito de pensamentos, muitas vezes as partes que discordam nem percebem que estão em dúvida em relação a qual aspecto priorizar na tomada de decisão. Em certos casos este processo de ponderar diferentes abordagens pode ocorrer dentro de um mesmo indivíduo, criando uma inconstância na sua decisão durante determinado período. Por isso, é tão importante, ao tomar uma decisão, saber qual a abordagem uma pessoa ou empresa está priorizando.

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