Entrevista concedida pelo Sócio da YPC Auditun, Quarthero Martim, ao PME NEWS, edição de Julho de 2026 – Tema: “Reforma Tributária: o que as empresas ainda não perceberam”.
PME NEWS – A Reforma Tributária tem sido vendida como simplificação, mas para as PMEs, o que ainda não ficou claro sobre o aumento de exigências e controle no dia a dia?
Quarthero Martim – A simplificação prometida pela Reforma Tributária está muito mais relacionada à unificação dos tributos do que à redução das obrigações operacionais. Na prática, as Pequenas e Médias empresas precisarão conviver com um ambiente de fiscalização muito mais integrado e automatizado. O Contribuinte precisará validar as informações que virão praticamente preenchidas da receita federal.
O grande ponto que ainda não está claro para muitos empresários é que o aproveitamento dos créditos de CBS (antigo PIS e COFINS que passa a vigorar em janeiro de 2027) e IBS (ICMS e ISS) dependerá diretamente da qualidade das informações transmitidas por toda a cadeia econômica. Isso exigirá maior controle sobre cadastros, documentos fiscais, parametrizações de produtos, contratos e processos internos.
Além disso, erros que antes poderiam passar despercebidos pela Receita Federal por anos poderão gerar bloqueios de créditos, notificações automáticas e questionamentos quase imediatos.
A empresa que enxergar a Reforma apenas como uma mudança de alíquota subestimará uma profunda transformação na governança tributária.
PME NEWS – Quais impactos financeiros “invisíveis” hoje podem surpreender pequenas e médias empresas nos próximos anos, especialmente no fluxo de caixa?
Quarthero Martim – O principal impacto invisível é a diferença entre o momento da geração do crédito tributário e o momento em que ele efetivamente se transforma em benefício financeiro para a empresa.
Muitas PMEs estão fazendo simulações apenas de carga tributária final, mas ignoram efeitos de capital de giro. Dependendo do setor, poderá haver aumento temporário da necessidade de caixa para financiar créditos acumulados, principalmente em empresas que vendem com prazos longos, exportam, possuem regimes diferenciados ou realizam investimentos relevantes.
Outro ponto pouco discutido é o efeito da inadimplência. A empresa poderá recolher CBS e IBS sobre operações realizadas e enfrentar desafios para recuperar esses valores caso o cliente não pague.
Também haverá custos indiretos importantes relacionados à adaptação de sistemas, revisão contratual, treinamento de equipes, reestruturação de processos e acompanhamento regulatório. São despesas que não aparecem nas projeções iniciais, mas podem representar valores significativos para PMEs.
PME NEWS – Muitas PMEs ainda não se movimentaram. Qual é o maior erro de leitura que esses empresários estão cometendo neste momento?
Quarthero Martim – O maior erro é acreditar que a Reforma só produzirá efeitos quando as novas alíquotas entrarem em vigor.
Na realidade, as empresas já deveriam estar analisando seus impactos operacionais, comerciais e financeiros. Os próximos anos serão marcados por uma longa transição, exigindo adaptações em sistemas, contratos, formação de preços, processos de compras e modelos de negócio.
Outro equívoco comum é imaginar que a Reforma afetará todos os concorrentes da mesma forma. Empresas de um mesmo setor podem experimentar resultados completamente diferentes dependendo da sua estrutura de custos, perfil de clientes, utilização de créditos e posicionamento na cadeia produtiva.
Quem deixar para agir apenas quando a cobrança integral começar poderá descobrir tarde demais que perdeu competitividade para concorrentes mais preparados.
PME NEWS – A mudança na tributação do consumo altera a formação de preço. Onde as PMEs estão subestimando esse impacto na margem e na competitividade?
Quarthero Martim – Muitas empresas ainda estão focadas exclusivamente na carga tributária própria e esquecendo que a Reforma altera toda a dinâmica da cadeia de valor.
A margem poderá ser impactada não apenas pela tributação incidente sobre suas vendas, mas também pela capacidade de geração de créditos dos seus fornecedores e pela percepção dos clientes (caso sejam pessoa jurídica) em relação a esses créditos.
Empresas que hoje competem apenas por preço poderão precisar demonstrar eficiência tributária. Um fornecedor que gera créditos adequados poderá se tornar mais atrativo do que outro aparentemente mais barato. As empresas que estão no SIMPLES NACIONAL precisarão averiguar qual o perfil do seu cliente e se os créditos de CBS e IBS impactarão na negociação de preços.
Além disso, diversos contratos comerciais precisarão ser renegociados. Cláusulas de reajuste, compartilhamento de custos, repasse tributário e definição de preços poderão exigir revisão. As empresas que não revisarem seus modelos de precificação correm o risco de reduzir margens sem perceber.
PME NEWS – A cadeia de fornecedores pode mudar com a Reforma. O que as PMEs ainda não perceberam sobre o risco (ou oportunidade) escondido nas relações comerciais?
Quarthero Martim – O crédito tributário passará a ter papel central na formação do custo efetivo das operações. Isso significa que a escolha de fornecedores poderá deixar de ser baseada exclusivamente em preço, qualidade e prazo de entrega.
Empresas que possuírem fornecedores organizados, com boa governança fiscal e emissão correta dos documentos fiscais, tendem a ter maior segurança na recuperação dos créditos tributários.
Por outro lado, fornecedores que apresentem problemas operacionais, erros cadastrais ou falhas recorrentes poderão gerar perdas financeiras indiretas para seus clientes.
Existe também uma oportunidade importante: empresas que se prepararem antes da concorrência poderão utilizar sua conformidade tributária como diferencial comercial, tornando-se parceiros preferenciais dentro das cadeias produtivas.
PME NEWS – Pensando em sobrevivência e crescimento, qual é o principal “ponto cego” da Reforma Tributária que pode fazer uma PME perder espaço no mercado sem perceber?
Quarthero Martim – O principal ponto cego é acreditar que a Reforma é apenas uma questão tributária.
Na verdade, estamos diante de uma transformação empresarial. A Reforma impacta estratégia, tecnologia, compras, vendas, contratos, precificação, fluxo de caixa e governança corporativa.
As empresas vencedoras não serão necessariamente aquelas que pagarem menos tributos, mas sim aquelas que conseguirem adaptar seus processos mais rapidamente, gerar informações confiáveis e tomar decisões com base em dados.
A PME que tratar a Reforma como um projeto exclusivo da contabilidade ou do departamento fiscal corre o risco de perder competitividade gradualmente, sem perceber que seus concorrentes estão se tornando mais eficientes, mais atrativos para clientes e mais integrados às novas exigências do mercado.