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O Novo Mapa do Empreendedorismo Regional no Brasil

Carlos Messeder
CEO da KOGNITIVA

O mapeamento do empreendedorismo regional, no Brasil, hoje, revela um país em transformação acelerada, no qual inovação, tecnologia e identidade territorial se combinam para redesenhar a forma como negócios nascem, crescem e se conectam às comunidades. A principal característica desse novo cenário é a descentralização: o empreendedorismo brasileiro deixou de ser concentrado nos grandes centros urbanos e passou a se espalhar por regiões antes consideradas periféricas, impulsionado por políticas de digitalização, infraestrutura logística mais robusta e uma mudança cultural que valoriza a busca por soluções locais para problemas locais.

O avanço da conectividade é um dos pilares dessa mudança. Ao longo de 2026, a expansão da internet de alta velocidade — especialmente por meio de redes 5G e iniciativas de inclusão digital — permitiu que cidades médias e pequenas pudessem se tornar polos de inovação. Municípios do interior do Nordeste, como Petrolina, Sobral e outros, consolidaram ecossistemas tecnológicos próprios, atraindo startups focadas em agritech, energias renováveis e educação digital. No Norte, cidades como Santarém e Marabá passaram a integrar cadeias produtivas digitais, conectando empreendedores locais a mercados nacionais e internacionais.

Essa interiorização do empreendedorismo não ocorreu apenas por meio da tecnologia. A força das vocações regionais teve também um peso grande. No Sul, o cooperativismo evoluiu para modelos híbridos que combinam produção agrícola com plataformas digitais de gestão e comercialização. No Centro-Oeste, o agronegócio se tornou um laboratório de inovação aberta, onde produtores, universidades e startups colaboram para desenvolver soluções de monitoramento climático, biotecnologia e automação rural. No Sudeste, a diversidade econômica impulsionou nichos como economia criativa, fintechs comunitárias e negócios de impacto social voltados para favelas e periferias.

Outro elemento central do novo mapa é o fortalecimento das redes regionais de apoio ao empreendedor. Em 2026, aceleradoras, hubs de inovação e programas públicos passaram a atuar de forma mais integrada, criando trilhas de desenvolvimento específicas para cada território. O papel das universidades também se transformou. Em 2026, instituições de ensino superior ampliaram sua atuação como agentes de inovação regional, criando laboratórios de prototipagem, programas de empreendedorismo acadêmico e parcerias com governos locais.

A digitalização dos serviços públicos foi outro fator decisivo. Processos de abertura de empresas, acesso a crédito e regularização fiscal se tornaram mais rápidos e menos burocráticos, permitindo que empreendedores de regiões remotas tivessem as mesmas condições de competitividade que aqueles dos grandes centros. Plataformas de crédito regional, muitas delas operadas por cooperativas e bancos comunitários, democratizaram o acesso ao financiamento, especialmente para microempreendedores.

A sustentabilidade vem se tornando, cada vez mais, um eixo transversal. Em praticamente todas as regiões, empreendedores passaram a incorporar práticas de economia circular, redução de resíduos e uso inteligente de recursos naturais. Essa tendência reflete tanto a pressão regulatória quanto a demanda crescente dos consumidores por produtos e serviços responsáveis, um traço forte do mercado de consumo contemporâneo.

O resultado desse conjunto de transformações é um país cada vez mais plural, onde o empreendedorismo reflete sua enorme diversidade cultural, econômica e ambiental. A dimensão local do território produtivo parece ter entrado definitivamente na pauta da economia brasileira, tornando-se uma ferramenta poderosa de desenvolvimento territorial, com forte potencial de inclusão social.

Paralelamente a todos os fatores apontados até aqui, há um fator novo com potencial para alterar substancialmente a atratividade de investimentos por parte das diferentes regiões do país e que terá que ser levado em consideração nesse mapa do empreendedorismo regional. A Reforma Tributária altera profundamente a atratividade de investimentos regionais ao praticamente extinguir a guerra fiscal e migrar a cobrança de impostos do local de produção (origem) para o local de consumo (destino). Essa mudança neutraliza o uso de incentivos fiscais do ICMS como principal arma de atração de empresas. A partir de agora, a competição entre os estados deixa de ser baseada simplesmente em renúncia fiscal e passa a focar em eficiência econômica, logística e infraestrutura.

O novo quadro tributário afeta diretamente o empreendedorismo ao reduzir drasticamente o custo de conformidade fiscal e ao mudar a forma como pequenos negócios vendem para grandes empresas. Embora o regime do Simples Nacional tenha sido mantido, as regras de transferência de créditos criam uma dinâmica competitiva inédita. A partir de agora, o sucesso do empreendedor dependerá menos de planejamento tributário regional e mais de produtividade e posicionamento de mercado.

Neste novo ambiente, as micro e pequenas empresas enfrentam uma transformação profunda que divide o seu impacto em duas frentes: a manutenção do tratamento simplificado para quem vende ao consumidor final e uma perda severa de competitividade para quem vende para outras empresas (mercado B2B). Embora a Reforma Tributária tenha mantido o Simples Nacional, mudou a dinâmica do mercado, criando vantagens administrativas e desvantagens comerciais. A perda de competitividade das micro e pequenas empresas no mercado B2B ocorre devido à mecânica do crédito tributário no novo sistema de Imposto sobre Valor Agregado (IVA).

Com a neutralização da guerra fiscal e a unificação da legislação pelo IVA Dual, a infraestrutura pública passa a ser o principal e mais agressivo diferencial competitivo que os estados possuem para atrair novos negócios. Sem a possibilidade de conceder isenções e créditos presumidos de ICMS, os governos estaduais enfrentam uma mudança estrutural em suas estratégias de atração. Os estados precisam focar em investimentos específicos em infraestrtura para garantir o fluxo adequado nesse novo ambiente econômico/produtivo. Estamos, mais uma vez, diante de um novo grande desafio!

*Carlos Messeder
É antropólogo, professor universitário e CEO da Kognitiva.

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