“Ele vale quanto pesa!”
“Tal trabalho não vale a pena!”
“A palavra dele não vale nada!”
“Isto aqui é um vale tudo!”
A palavra “vale” possui várias definições desde sua definição geográfica como depressão ou planície entre montanhas ou no sopé de um monte, passando por um documento que serve como pagamento de um serviço; ou a terceira pessoa do verbo valer. Embora seja interessante pensar e imaginar a beleza de certos vales que são verdadeiros destinos turísticos; bem como o prazer que um vale refeição ou vale férias proporciona; este texto refere-se ao conceito de valor.
Hoje em dia o termo vale acabou pegando a conotação de “ok”. Da onde será que veio isto? Se algo tem um valor significativo é, portanto, aceitável; sendo assim é o mesmo que dizer: sim ou isto me satisfaz. Logo tanto o uso do termo vale ou valeu carrega inconscientemente o conceito de ter valor. Quando alguém pergunta: “Vale a pena assistir este filme de duas horas?” ou “Vale a pena comprar esta calça?”. O mesmo conceito de aceitação ou rejeição buscando a noção de valor está embutido na resposta. Embora no primeiro caso não haja a quantificação em dinheiro como no segundo. A resposta da pergunta da calça carrega uma questão amarrada: “depende do preço e o quanto a calça é desejada”. Já a pergunta do filme traz à tona questões bem subjetivas e mais complexas como: O que eu estaria fazendo nestas outras duas horas? Será que o filme é cansativo, de terror, traumático, imoral, chocante etc.
Independentemente de tentar precificar qualquer bem; é certo afirmar que como pessoas são diferentes os valores que determinam a aceitação ou rejeição será distinto. Não se trata de coisas óbvias como água para alguém que está no deserto morrendo de sede; que é capaz de dar tudo que tem por um copo d’água; enquanto em outros lugares água é desperdiçada por seu valor irrisório. O simples fato de alguém dizer um obrigado valoriza um indivíduo, atraindo pessoas para estarem em sua companhia. Com o intuito de provar como o simples fato de tratar os outros com cordialidade tem valor é apresentado um conto, que dizem ser verídico.
Um funcionário de um frigorífico, onde trabalhava há anos, um dia ficou preso por acidente dentro do freezer. Isto ocorreu no final do expediente quando ele era o último funcionário do setor a sair de lá. Quando ele percebeu que os outros funcionários tinham partido ele já estava entrando em pânico, reconhecendo que poderia morrer em função do erro. Não tinha celular, nem botão de emergência, batia desesperadamente na porta e não havia mais ninguém do departamento que pudesse ajudá-lo. Mas algum tempo depois, o porteiro do prédio apareceu e o salvou. O funcionário do frigorífico perguntou: “Sei que você trabalha lá embaixo e não teria nenhum motivo para subir até aqui. Como adivinhou que eu estava preso, tão afastado da portaria; por que você veio me procurar?”. O porteiro respondeu: “Havia sim, todos os dias o senhor me diz “Bom Dia” ao chegar e “Boa Noite” ao sair! Como o senhor disse hoje de manhã “Bom dia!”; estranhei quando os outros funcionários saíram e o senhor não estava junto sendo sempre tão educado comigo.”
O conto acima serve para mostrar o valor da boa educação e como isto pode salvar vidas. Mas quando estudamos nos livros de economia associamos valor a algo intangível que se refere a utilidade. Algo que obviamente também varia de pessoa para pessoa; ainda mais quando reconhecemos que o valor varia no “tempo e no espaço”. Os livros de economia, em especial na cadeira de microeconomia debatem termos como utilidade marginal decrescente ou crescente, analisando a variação de satisfação que cada bem adicional proporciona a quem consome.
Um exemplo clássico é o prazer que a primeira dose de um whisky proporciona a um apreciador desta bebida, a segunda dose ainda poderá ser mais agradável, todavia se esta pessoa continuar bebendo notará que em algum momento o seu prazer é menor a cada dose adicional (o que é denominado na literatura como utilidade marginal decrescente). A generalização deste conceito comportamental para a maioria dos produtos é o fundamento das teorias clássicas.
Quando se analisa de forma filosófica o conceito de valor, notamos que este envolve emoções distintas. Para uma mãe os rabiscos no desenho de um filho que tentou retratá-la, valem mais do que uma obra de arte de um pintor famoso. Marcas e modismos transformam o desejo de consumidores a cada momento, sendo o objetivo de marqueteiros criar este desejo. O fato de um lugar estar atendendo com um sorriso pode até criar valor. Portanto, valor é algo subjetivo, algo que não pode ser confundido com preço que é quantificável.
*Oscar Lewandowski.
Atualmente é professor UFRJ/FACC Curso de C. Contábeis. Tendo já lecionado no IBMEC-RJ, UNIFESO e UFF, além de atuado no Mercado Financeiro. Formação como doutor pela FGV EBAPE-RJ, mestrado IBMEC-RJ e graduado como economista na UFRJ-FEA.



