Entrevista concedida pelo Especialista em Governança Corporativa, Iúna Hoffmann, ao PME NEWS, edição de Março de 2026 – Tema: “Governança Corporativa: Método que Reduz Risco”.
PME NEWS – Qual é o real papel da governança corporativa na tomada de decisão?
Iúna Hoffmann – A governança corporativa transforma a decisão empresarial de um ato intuitivo em um processo estruturado, rastreável e alinhado à estratégia. Seu papel central é estabelecer quem decide, com base em quais informações, dentro de quais limites e com quais responsabilidades.
Ao definir regras claras, instâncias decisórias e critérios objetivos, a governança reduz vieses pessoais, conflitos de interesse e decisões reativas. Ela cria disciplina decisória, garantindo que escolhas relevantes considerem riscos, impactos financeiros, sustentabilidade e alinhamento com o propósito do negócio.
Na prática, governança não retira autonomia do gestor, mas qualifica a decisão, dando suporte técnico e estratégico para que ela seja tomada com mais consistência, previsibilidade e segurança jurídica.
PME NEWS – Quais riscos costumam surgir quando a empresa cresce sem uma estrutura clara de governança?
Iúna Hoffmann – O crescimento sem governança costuma gerar riscos silenciosos, porém cumulativos. Os mais frequentes são a concentração excessiva de decisões, conflitos entre sócios, informalidade contratual, ausência de controles e perda de visão estratégica.
Com o aumento da operação, decisões passam a ser tomadas de forma reativa, sem critérios claros ou registro, o que fragiliza a empresa juridicamente e financeiramente. Também surgem riscos de sucessão, dependência de pessoas-chave e dificuldades de acesso a crédito ou a investidores.
Muitas empresas só percebem esses problemas quando enfrentam crises, disputas societárias ou travas no crescimento. A ausência de governança não impede a empresa de crescer, mas aumenta exponencialmente o custo, o risco e a instabilidade desse crescimento.
PME NEWS – De que maneira a governança corporativa impacta na sustentabilidade do negócio ao longo do tempo?
Iúna Hoffmann – A governança é um dos principais pilares da sustentabilidade empresarial, porque garante continuidade, previsibilidade e capacidade de adaptação. Ao organizar processos decisórios, controles e responsabilidades, ela reduz a dependência de indivíduos e fortalece a instituição. Isso permite que a empresa atravesse ciclos econômicos, trocas de liderança e mudanças de mercado com menor impacto.
Além disso, a governança promove o equilíbrio entre resultados de curto prazo e visão de longo prazo, evitando decisões oportunistas que comprometam o futuro do negócio. Empresas governadas tendem a ter melhor gestão de riscos, maior credibilidade perante o mercado e maior capacidade de planejar sucessão, expansão e investimentos. Sustentabilidade, nesse contexto, é consequência direta de método, e governança é esse método.
PME NEWS – Até que ponto a governança é viável e eficaz para PMEs na redução de riscos?
Iúna Hoffmann – A governança é não apenas viável para PMEs, como especialmente eficaz nesse estágio. O erro comum é associá-la a modelos complexos, quando, na prática, ela pode ser proporcional ao tamanho e à maturidade da empresa.
Para PMEs, governança significa clareza societária, regras decisórias, registros mínimos, controles financeiros e alinhamento estratégico. Esses elementos reduzem riscos operacionais, jurídicos e societários com custo muito inferior ao custo das crises que evitam. Além disso, empresas menores ganham agilidade e organização ao implementar governança desde cedo, criando uma base sólida para crescer. Governança em PMEs não é sobre estrutura pesada, mas sobre criar ordem, previsibilidade e segurança para decisões estratégicas.
PME NEWS – Que evidências mostram que a governança está, de fato, funcionando dentro da empresa?
Iúna Hoffmann – A governança funciona quando deixa de ser discurso e passa a orientar a rotina decisória. Algumas evidências claras são: decisões registradas, critérios objetivos para aprovações relevantes, papéis bem definidos entre sócios e gestores, redução de conflitos internos e maior previsibilidade financeira.
Também se torna perceptível quando a empresa responde melhor a crises, pois já possui processos e instâncias claras. Outro sinal importante é a qualidade das reuniões estratégicas, que deixam de ser improvisadas e passam a ser pautadas por dados, riscos e objetivos. Quando a governança está funcionando, a empresa cresce com menos retrabalho, menos tensão interna e maior confiança entre sócios, gestores e parceiros externos.
PME NEWS – O que você diria a líderes que ainda associam governança à burocracia, e não à estratégia?
Iúna Hoffmann – Governança não é burocracia, é método para tomar decisões melhores. Ela não cria obstáculos, cria critérios; não engessa a empresa, organiza o crescimento e reduz riscos. Líderes que a veem como burocracia normalmente já tomam decisões complexas, mas sem estrutura, o que aumenta o desgaste. Por isso, governança é estratégia aplicada à decisão e deve ser vista como investimento em longevidade e valor do negócio.
Na prática, quando um empresário decide implantar governança em sua empresa, o primeiro passo não é criar regras, mas entender como as decisões acontecem hoje. Mapear quem decide, o que é informal e onde estão os principais riscos traz clareza sobre gargalos, sobreposição de papéis e dependências excessivas. Esse diagnóstico faz com que a governança deixe de ser abstrata e passe a resolver problemas reais. Governança começa com consciência organizacional, só depois vêm estruturas e controles proporcionais à realidade da empresa.