Esta coluna é destinada a entrevistas com especialistas, gestores, executivos e empresários de destaque.
Segue a entrevista com o Professor e Economista Oscar Lewandowski.
PME NEWS – Todo empresário gostaria de saber o que vai acontecer amanhã. Afinal, existe uma bola de cristal capaz de prever o futuro dos negócios?
Oscar Lewandowski – Essa é uma tentação antiga. Existe até uma frase que ouvi durante muitos anos: “Adivinhar é proibido”. Mas a verdade é que todos tentamos adivinhar. Desde a roupa que devemos levar em uma viagem até como proceder com nossos investimentos.
Com o advento da tecnologia, passamos a acreditar que conseguimos saber o que irá acontecer amanhã e, com isso, tentar tirar proveito das informações. As pessoas passaram a usar previsões do clima para tomar decisões diariamente. Festas, viagens e roupas são escolhidas usando previsões meteorológicas que antes nem eram sonhadas.
À medida que a tecnologia avança, ficamos menos tolerantes ao erro e mais exigentes. Saber a previsão para um dia já não basta. Queremos saber o que vai acontecer nos próximos dias, semanas, meses e até na mesma estação do ano seguinte.
Essas informações passaram a ser fundamentais também para decisões de agentes públicos. Situações como isolamento de áreas e cancelamento ou adiamento de eventos ocorrem de forma preventiva. Em Copas do Mundo de Futebol, jogos já foram adiados por causa das condições climáticas. Na Europa, quando uma nevasca castiga uma região, moradores reclamam por não terem sido devidamente avisados dos riscos.
PME NEWS – Até que ponto as previsões realmente ajudam na tomada de decisão?
Oscar Lewandowski – Elas são importantes, mas é preciso entender seus limites. Essa mesma lógica pode ser extrapolada para o mercado financeiro, onde decisões são tomadas com base nas expectativas de comportamento da taxa de juros, do câmbio, dos níveis de emprego e de diversas outras variáveis.
Nesse ambiente, há aqueles que acreditam nos ciclos e tendências apontados pelos gráficos. É daí que surgem duas formas bastante conhecidas de leitura do mercado: a análise fundamentalista e a análise gráfica. Ambas são estratégias que buscam prever o comportamento do mercado
PME NEWS – O mercado financeiro vive de previsões. O empresário pode usar a mesma lógica na gestão da empresa?
Oscar Lewandowski – Pode, mas existe uma diferença fundamental entre prever o clima e prever o mercado.
Imagine que todos soubessem que vai chover hoje. As pessoas simplesmente sairiam de casa com capa ou guarda-chuva. Agora imagine que todos soubessem que o dólar iria cair depois do almoço. Pela manhã haveria apenas vendedores e talvez nenhum comprador.
Esse tipo de situação, em que a expectativa altera o próprio comportamento do mercado, já aconteceu em diferentes momentos. Houve uma época em que os preços dos combustíveis eram tabelados e o governo avisava que à meia-noite haveria reajuste. Bastava a notícia ser divulgada para filas quilométricas se formarem imediatamente nos postos de gasolina.
PME NEWS – Muitos empresários acreditam que quem tem sucesso simplesmente acerta mais. Isso faz sentido?
Oscar Lewandowski – Não necessariamente. A ideia de que empresários bem-sucedidos não erram é equivocada. Existem pessoas que acertam mais do que erram, mas, para acertarem, tiveram que errar.
Um lojista só saberá no futuro se comprou o produto errado ou a quantidade errada, porque o comportamento dos clientes e dos concorrentes pode variar. Ao analisar seus resultados, não deve olhar apenas para os produtos que ficaram encalhados, mas também para aqueles que venderam exatamente na quantidade desejada.
PME NEWS – Aprender com os resultados do passado é suficiente para tomar uma boa decisão no futuro?
Oscar Lewandowski – Aprender apenas com o passado não garante eficiência. Se, no período seguinte, o comerciante comprar mais dos produtos que venderam bem e menos daqueles que ficaram no estoque, isso não significa necessariamente que estará tomando a decisão correta. O comportamento do mercado pode ter mudado. Aprender com o passado é importante, mas é preciso ficar atento aos sinais do futuro.
PME NEWS – Então, quanto vale uma “bola de cristal” para quem empreende?
Oscar Lewandowski – A palavra-chave é informação. O sonho de qualquer investidor seria ler, pela manhã, o jornal do dia seguinte. Se alguém tivesse essa oportunidade, mesmo que apenas uma vez na vida, saberia como ganhar dinheiro sem correr riscos.
Alguns consultores apresentam suas estimativas como se possuíssem uma bola de cristal. Mas, se alguém realmente tivesse uma, ela seria inestimável, pois seu detentor poderia gerar valor para si indefinidamente.
No fim das contas, mais importante do que simplesmente saber o que vai acontecer é saber quando algo vai acontecer e, principalmente, saber antes dos outros.