ARTIGOS

O PORTAL DA MICRO, PEQUENA E MÉDIA EMPRESA.

O desafio de crescer sem perder o controle

Claudio Amaral
Especialista em Governança Corporativa

O faturamento cresce, novos contratos entram e a equipe aumenta. Ainda assim, o sócio continua aprovando quase tudo, o financeiro precisa renegociar pagamentos e as entregas dependem das mesmas pessoas.

A empresa está vendendo mais. Mas sua capacidade de sustentar esse crescimento precisa ser examinada com o mesmo cuidado.

Nas pequenas e médias empresas, a expansão exige decisões sobre prazos, contratações, estoques e investimentos. Cada compromisso afeta a operação e pode consumir recursos antes que a receita se transforme em dinheiro disponível.

É nesse ponto que a governança precisa participar da conversa: quem pode assumir esses compromissos, com quais informações e dentro de quais limites?

Imagine uma empresa de serviços que conquista três contratos relevantes em poucas semanas. Para atender aos novos clientes, precisa contratar profissionais, comprar equipamentos e ampliar a estrutura. Os salários e fornecedores vencem antes do recebimento das primeiras faturas.

Nesse exemplo hipotético, os contratos podem ser rentáveis e, ainda assim, pressionar o caixa. A diferença entre o momento de pagar e o de receber precisa ser financiada.

O risco aumenta quando a proposta comercial é aprovada sem que essa necessidade seja calculada. A venda está fechada, mas a empresa ainda não sabe quanto dinheiro precisará colocar na operação, por quanto tempo e de onde ele virá.

Crescer pode consumir caixa de forma planejada. O problema surge quando a necessidade de financiamento só aparece depois que os compromissos foram assumidos.

Por isso, antes de aprovar uma expansão, sócios e gestores precisam discutir algumas perguntas:

  • Qual é a margem esperada depois dos custos adicionais?
  • Quanto capital de giro será necessário e por quanto tempo?
  • A equipe e a estrutura conseguem entregar o que está sendo vendido?
  • O que acontece se o cliente atrasar ou a operação custar mais?
  • Quais resultados ou desvios levariam à revisão do plano?

Essas respostas precisam chegar a quem decide antes da assinatura do contrato.

Depois, devem orientar o acompanhamento da execução.

A centralização também cobra seu preço durante a expansão

Quando o negócio é menor, a presença do sócio pode facilitar a solução de problemas. Com mais clientes, pessoas e compromissos, essa mesma dinâmica pode criar uma fila de decisões. A equipe espera autorização, as exceções se acumulam e o empresário passa o dia resolvendo urgências.

Larry Greiner, professor americano, que criou o modelo de crescimento de Greriner, descreve como práticas que favorecem uma etapa do crescimento podem se tornar obstáculos na etapa seguinte. A reflexão se aplica à necessidade de rever a forma de delegar e acompanhar decisões conforme a empresa se transforma.

Definir alçadas ajuda, mas estabelecer apenas um limite em reais pode ser insuficiente. Uma compra de menor valor pode criar uma obrigação recorrente ou envolver um fornecedor sem alternativa. A avaliação precisa considerar também o prazo, a natureza do compromisso e seu impacto no negócio.

Delegar exige preparar as pessoas, estabelecer critérios e acompanhar resultados. Exige, ainda, que o sócio respeite a autoridade que distribuiu. Quando toda decisão é refeita ou precisa de sua confirmação, a dependência permanece.

Para o empresário que quer começar, um caminho prático é escolher o próximo contrato relevante ou investimento e avaliar como a decisão será tomada.

Quem apresentará a projeção de caixa? Quem verificará a capacidade de entrega?

Quem poderá aprovar? Quais situações exigirão consulta aos sócios? Quem acompanhará o resultado?

Esse exercício conecta governança a uma decisão concreta e ajuda a identificar onde faltam informação, responsabilidade ou critérios.

O acompanhamento também precisa ter consequência. Se o prazo de recebimento aumenta, a margem se deteriora ou a entrega exige mais recursos, a liderança deve avaliar o que precisa mudar. Pode ser necessário renegociar condições, ajustar a operação ou rever o ritmo da expansão.

Nem toda dificuldade indica que crescer foi um erro. O que exige atenção é a repetição de desvios sem análise e sem resposta.

Os controles devem ser proporcionais à exposição. Uma venda rotineira dentro das condições aprovadas pode seguir um fluxo simples. Um contrato que concentre parte relevante da receita ou comprometa o caixa por vários meses merece outra profundidade de avaliação.

Essa distinção preserva a agilidade e direciona a atenção da liderança para as decisões de maior impacto.

A governança contribui quando esclarece responsabilidades, estabelece limites e permite cobrar resultados. Sua utilidade aparece na capacidade de reconhecer um desvio e agir enquanto ainda existem alternativas.

Antes de assumir a próxima etapa de crescimento, vale reunir a visão comercial, financeira e operacional em torno da mesma decisão. A oportunidade precisa caber no caixa, na capacidade de entrega e nos riscos que os sócios estão dispostos a assumir.

A pergunta para o empresário é direta: se as vendas acelerarem amanhã, a empresa estará preparada para entregar, financiar a operação e decidir sem depender de você em tudo?

* Linkedin: Claudio Amaral

Compartilhe:

Receba o PME NEWS

Ao enviar o e-mail, você declara estar de acordo com as Políticas de Privacidade e de Cookies publicadas no site.

PATROCINADOR