Esta coluna é destinada a entrevistas com especialistas, gestores, executivos e empresários de destaque.
Segue a entrevista com o Fernando Perasso.
PME NEWS – Como mudou a relação das PMEs com a tecnologia e a transformação digital?
Fernando Perasso – Durante muito tempo, falar em tecnologia dentro de uma PME era sinônimo de despesa: servidor caro, sistema complicado e consultoria que ninguém entendia. Em 2026, o cenário mudou. A pergunta já não é se a empresa deve se digitalizar, mas por onde começar sem comprometer o caixa.
PME NEWS – Quais são os riscos de começar a transformação digital pela inteligência artificial?
Fernando Perasso – Há um alerta recente que merece atenção. Segundo a projeção do Gartner, mais de 40% dos projetos de agentes de IA nas empresas devem ser abandonados até 2027. A tecnologia, porém, não é a vilã. O tropeço costuma estar nos negócios que acrescentam inteligência a rotinas desorganizadas e cadastros malcuidados acabam com a conta mais alta, sem enxergar retorno e sem controle dos riscos. O problema nasce na ordem das decisões.
Muitos empresários iniciam a digitalização pela ponta, assinam uma plataforma, testam um chatbot, contratam um “agente” e só depois descobrem que a internet não aguenta, que os dados estão espalhados em planilhas e que ninguém sabe quem tem acesso.
Convém também desconfiar do marketing, muitos fornecedores colam a etiqueta de “agente inteligente” em chatbots e automações antigas, prática que batizou de agent washing. Dos milhares que dizem vender essa tecnologia, só uma pequena fração entrega algo realmente novo. Para as PMEs, vale o bom senso e entender a própria necessidade antes de comparar propostas.
Pense na rotina de muitas PMEs com cadastros de clientes sem saneamento, estoque que não bate com a nota fiscal, planilhas do financeiro e do comercial contando histórias diferentes. Um sistema inteligente instalado sobre essa confusão não a corrige. Ele só passa a decidir com base no que está errado.
PME NEWS – Afinal, o que significa ter uma infraestrutura mínima para uma PME?
Fernando Perasso – Infraestrutura mínima não significa montar um departamento de TI nem comprar o que há de mais moderno. Significa garantir a base que sustenta a operação diária.
Conectividade confiável, Internet estável, roteador bem configurado e, se possível, um link de contingência. Separar a rede dos clientes da rede interna é simples, barato e evita muita dor de cabeça.
Equipamentos adequados, nem tudo precisa ser trocado. Muitas vezes, um SSD e mais memória devolvem anos de vida útil a um computador que travava o trabalho. A prioridade é atualizar as máquinas que realmente atrapalham a rotina.
Nuvem no lugar do servidor próprio, pagar por assinatura, conforme o uso, elimina o grande desembolso inicial, traz backup automático e libera o acesso de qualquer lugar.
Segurança básica, autenticação em dois fatores, gerenciador de senhas, antivírus atualizado e, principalmente, backup testado. Parece pouco, mas é o que separa um susto de uma paralisação. A LGPD vale para empresas de todos os tamanhos.
PME NEWS – Por que dados e processos organizados são fundamentais antes de investir em automação e inteligência artificial?
Fernando Perasso – Dados e processos organizados são o elo mais frágil da maioria das empresas. Um único cadastro de clientes e produtos, sistemas que troquem informação entre si, rotinas escritas e um dono claro para cada processo. Sem isso, até a automação mais sofisticada apenas erra mais rápido.
Empresas que tentam mudar tudo de uma vez enfrentam resistência da equipe, falhas de implantação e gastos não planejados.
Liste equipamentos, licenças, contratos e acessos. Muita gente descobre que paga por ferramentas que ninguém abre. Entenda qual gargalo custa mais tempo ou dinheiro. Quem define de antemão o resultado esperado, em reais ou em horas economizadas, investe com mais segurança.
PME NEWS – Como uma PME pode fazer essa transformação de forma mais segura e com menos risco?
Fernando Perasso – Teste em pequena escala as mudanças, experimentando com um setor antes de ampliar. Planos mensais e períodos de teste reduzem o risco de pagar por algo que não funciona.
Capacite o time, sem isso, o investimento em equipamentos e software não rende o esperado. Planeje algumas horas por semana para isso. Defina um indicador simples, como tempo de atendimento, quedas de sistema ou horas gastas em tarefas manuais, e acompanhe mês a mês.
Quem não pode arcar sozinho com o investimento conta com apoio. A nova fase do programa Brasil Mais Produtivo, em parceria com Sebrae e Finep, prevê capacitar mais de 200 mil pequenas empresas para a transformação digital, com acesso a materiais, cursos e ferramentas.
PME NEWS – Com toda essa preparação, qual é o futuro da inteligência artificial e qual deve ser o ponto de partida para uma PME?
Fernando Perasso – Nada disso torna os agentes de IA um modismo passageiro. O próprio Gartner enxerga um futuro em que boa parte das decisões do dia a dia da operação será delegada a eles. Mas o resultado depende do chão em que são plantados.
No fim do dia, modernizar não é comprar tecnologia, é construir condições para que o negócio cresça com segurança. Conexão estável, equipamentos adequados, nuvem, segurança e dados organizados não são um limite, são o ponto de partida. E tudo isso pode começar amanhã, com pouco dinheiro e muita organização.