Edição do Mês

O PORTAL DA MICRO, PEQUENA E MÉDIA EMPRESA.

REALIZAÇÃO: Bit Partner | DIREÇÃO: Sidney Cohen

O Desafio de Não Deixar a Cadeira Vazia

Em muitas PMEs, a sucessão só entra na agenda quando a urgência aparece. O problema é que uma transição bem-sucedida precisa ser construída antes, com planejamento, desenvolvimento de novas lideranças e uma gestão preparada para evitar que a ausência de um líder coloque em risco a continuidade do negócio.

Confira a entrevista desse mês do PME NEWS, com Claudio Amaral, Especialista em Governança Corporativa, que aborda como evitar a “Cadeira Vazia” e a importância de preparar a empresa para o futuro, fortalecendo sua governança e sua capacidade de seguir crescendo.

Bastidores

  • A inteligência artificial já faz parte da estratégia de crescimento de empresas de todos os portes, inclusive das pequenas. Mas, depois dos investimentos iniciais, surge uma questão que preocupa muitos gestores: como comprovar o retorno obtido? Levantamento da McKinsey, no relatório The State of AI 2025, mostra que boa parte das organizações ainda encontra dificuldades para transformar projetos de IA em resultados financeiros, evidenciando a importância de uma infraestrutura preparada, dados confiáveis e indicadores de desempenho para sustentar essa evolução.
  • A formalização tem impulsionado a renda dos empreendedores com 60 anos ou mais. Empreendedorismo Sênior Sob a Ótica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD Contínua), do Sebrae, com base em dados do IBGE, mostra que, no 4º trimestre de 2025, os empreendedores formalizados alcançaram rendimento médio de R$ 7.458, contra R$ 2.152 registrados pelos informais. O levantamento também aponta avanço na escolaridade desse público, com crescimento da participação de empreendedores com ensino médio completo ou mais, de 24% para 42% entre 2012 e 2025.

Novos Desafios

  • Raquel Nogueira é a nova Diretora de RH da Hoya Vision Care.
  • Camila Rabelo é a nova Diretora Comercial da UP2Tech para a America do Sul.

Dados Impressionantes

  • Levantamento do Sebrae aponta que as micro e pequenas empresas (MPEs) são responsáveis por R$ 51 bilhões pagos mensalmente em salários aos trabalhadores brasileiros. Na prática, de cada R$ 100 destinados à remuneração no mercado de trabalho, R$ 40 saem dos pequenos negócios, reforçando a relevância do segmento para a geração de renda no país. As MPEs também respondem por cerca de 26% do PIB empresarial brasileiro. Em abril, outro dado chamou a atenção: oito de cada dez vagas de emprego formal foram criadas por micro e pequenas empresas.
  • As micro e pequenas empresas seguem sustentando o mercado de trabalho no comércio brasileiro. Levantamento Panorama do Emprego, do Sebrae, com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS 2024), mostra que o segmento responde por cerca de 70% dos empregos formais do setor. No total, as MPEs somam 19,8 milhões de vínculos ativos, superando as médias e grandes empresas, que empregam 19,5 milhões de trabalhadores. Entre as atividades que mais empregam, restaurantes e similares lideram o ranking, com mais de 721 mil postos de trabalho, ocupando a primeira posição em 13 estados e no Distrito Federal. Na sequência aparecem o comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios e o comércio varejista de produtos farmacêuticos, sem manipulação de fórmulas.

Agenda

4 a 7 de Agosto – Rio de Janeiro – RJ
Rio Innovation Week
Local: Pier Mauá

Entrevista

Esta coluna é destinada a entrevistas com especialistas, gestores, executivos e empresários de destaque.

Segue a entrevista com o Claudio Amaral.

PME NEWS – Por que tantas PMEs ainda deixam a sucessão para depois, até que ela vire um problema urgente?

Claudio Amaral – Na maioria das PMEs, a sucessão só entra na pauta quando já virou urgência.

E urgência é o pior momento possível para decidir quem vai liderar.

A cena costuma se repetir. Um fundador competente, que construiu a empresa com as próprias mãos, concentra decisões, relacionamentos e conhecimento. Enquanto está presente, tudo funciona. Os clientes confiam nele, a equipe responde a ele, os fornecedores negociam com ele. O problema aparece quando ele falta – por escolha, por doença ou por imprevisto.

De repente, a cadeira que parecia ocupada para sempre está vazia. E ninguém foi preparado para sentar nela.

PME NEWS – O que as empresas ainda não entenderam sobre a natureza da sucessão?

Claudio Amaral – Aqui está o ponto que poucos enxergam: sucessão não é um evento. É um processo.

Tratar a sucessão como evento é esperar o momento da transição para pensar nela. É reagir à perda, ao afastamento ou ao cansaço do líder atual como se fossem surpresas – quando, na verdade, são as únicas certezas de qualquer trajetória empresarial.

Tratá-la como processo é outra coisa. É construir, ao longo de anos, a capacidade da organização de continuar decidindo bem sem depender de uma única pessoa.

A diferença entre esses dois caminhos é exatamente o que chamamos de governança.

PME NEWS – Por que ainda existe resistência em adotar governança nas PMEs, especialmente em setores mais sensíveis?

Claudio Amaral – Em PMEs – e isso é especialmente sensível em operadoras e empresas de saúde, onde uma decisão errada afeta vidas e a sustentabilidade do negócio ao mesmo tempo – a governança ainda é confundida com burocracia. Como se fosse um custo, um excesso de formalidade, algo que só faz sentido em grandes corporações. Não é.

PME NEWS – Na prática, como a governança estrutura um processo sucessório mais sólido?

Claudio Amaral – No processo sucessório, a governança cumpre três funções concretas.

Primeiro, profissionaliza a gestão. Separa o que é propriedade do que é gestão. Define que liderar a empresa é uma função técnica, ocupada por competência, e não um direito hereditário automático. Essa distinção parece óbvia no papel, mas é justamente o que falta quando o sobrenome pesa mais que o preparo.

Segundo, separa a emoção familiar da decisão empresarial. Talvez o ponto mais difícil de todos. Em empresas familiares, afeto, lealdade e história pessoal se misturam às decisões de negócio. Um filho querido nem sempre é o gestor mais preparado. Um executivo de fora, por mais competente, pode encontrar resistência por não pertencer à família. Um conselho – mesmo que apenas consultivo – cria um espaço onde a pergunta deixa de ser “quem merece” e passa a ser “quem está preparado”. Essa única mudança de pergunta muda o destino da empresa.

Terceiro, prepara o sucessor com antecedência. Seja um herdeiro, seja um executivo de mercado. Preparar não é anunciar um nome. É exposição a decisões reais, mentoria consistente, erros controlados e responsabilidade que cresce de forma deliberada. Liderança não se transfere por decreto. Forma-se com tempo.

PME NEWS – Onde os processos de sucessão mais falham na prática?

Claudio Amaral – Considere um caso comum. Empresa de médio porte, segunda geração assumindo. O herdeiro é capaz, tem formação, tem boa intenção. Mas nunca tomou uma decisão difícil sozinho, porque o fundador sempre esteve lá para corrigir a rota antes que o erro custasse caro.

No dia em que o fundador sai, o sucessor não herda apenas o cargo. Herda um vácuo de julgamento que ninguém o ajudou a formar.

Não foi falta de talento. Foi falta de processo.

E há um obstáculo que poucos admitem em voz alta: muitas vezes, quem mais resiste à sucessão é o próprio líder atual. Não por má-fé. Mas porque a empresa se confunde com a própria identidade. Abrir mão do controle soa como abrir mão de si mesmo. Reconhecer esse ponto é parte do trabalho de governança e talvez o mais delicado.

PME NEWS – Quando e como uma empresa deve começar a planejar a sucessão para evitar esse cenário?

Claudio Amaral – O insight prático é simples de enunciar e difícil de executar: comece a planejar a sucessão quando a empresa está saudável e o líder atual está presente. Não porque a transição é iminente. Mas porque é justamente a estabilidade que permite preparar pessoas sem pressão, testar cenários sem pânico e construir confiança institucional antes que ela seja exigida pelas circunstâncias.

Uma transição madura:

→ identifica candidatos com antecedência → desenvolve competências de forma deliberada → documenta o conhecimento crítico que hoje vive só na cabeça do fundador→ distribui decisões antes de precisar → institui um conselho que sustenta a continuidade

A cadeira vazia não é o verdadeiro risco.

O verdadeiro risco é construir uma empresa inteira sobre a suposição de que a cadeira nunca vai esvaziar.

Empresas perenes não dependem de uma pessoa insubstituível. Elas desenvolvem a capacidade de continuar decidindo bem quando essa pessoa não está mais lá.

Pense Nisso

O que trava mais a sucessão nas PMEs: a ausência de um sucessor preparado, ou a dificuldade do líder atual em abrir mão do controle?”. 

Claudio Amaral

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